Júlia Galizzi | Nutrição cons(ciência)

Minha história com a alimentação e a nutrição

Quando eu era mais nova, minha relação com o corpo estava longe de ser simples. Nunca fui “magrela” — e, por muito tempo, isso foi um incômodo.

Quando a busca por um corpo “ideal” adoece

Passei por um episódio de anorexia por volta dos 13 anos. Ali, entendi na pele como a busca por um corpo “ideal” pode adoecer tudo ao redor: parei de menstruar, sentia fraqueza o tempo inteiro, mal conseguia sair de casa.

Por trás disso, uma enxurrada de pensamentos e comportamentos extremamente disfuncionais — que, na época, pareciam normais.

Movimento como reencontro

Minha mãe nunca me forçou a praticar nenhum exercício específico, mas fazia questão de que eu estivesse envolvida com alguma atividade — da minha escolha. Aos poucos, foi assim que encontrei um caminho de reconexão.

Comecei a treinar com mais frequência por volta dos 14, 15 anos. Foi quando perdi parte do medo de ganhar peso. Agora, eu queria ganhar músculo.

Mas, olhando para trás, percebo que essa nova vontade também veio carregada de rigidez. Teve um ano em que não faltei um único dia na academia — com exceção dos dois em que ela fechou. Literalmente.

A primeira consulta que não me acolheu

Lembro com nitidez da minha primeira consulta com uma nutricionista. Eu tinha 13 anos. Era uma profissional bastante estereotipada (na época, isso era comum) — e saí de lá com orientações que hoje fazem pouco ou nenhum sentido: cheirar óleo essencial, beber água com clorofila, comprar bolinhos e biscoitos “x” e “y”.

Faltou escuta. Faltou acolhimento. Faltou cuidado.

Naquele momento, cheguei a julgar a própria profissão: estudar pacotes, indicar coisas mirabolantes… aquilo, com certeza, não era pra mim. E sinceramente? Ainda acho que não deveria ser pra ninguém.

Uma nutrição que cuida de verdade

Com o tempo — e muitas experiências no caminho — fui descobrindo outra nutrição. Mais humana. Mais real. Mais inteligente.

Uma nutrição que considera o contexto, os sentimentos, a história de quem está do outro lado. E que bom é, hoje, poder ser nutricionista.

Poder oferecer o que eu precisei lá atrás. Poder construir, com outras pessoas, o que me faltou por tanto tempo: escuta, afeto, caminhos possíveis.

Um corpo que me acompanha

Com os anos, fui cultivando um corpo de que gosto — e, mais importante, que gosta de mim. Um corpo que me permite viver como eu quero: com energia, movimento e presença.

Um corpo que não me aprisiona, mas me sustenta. Que não me define, mas me acompanha.

Talvez a maior conquista tenha sido essa: conseguir olhar com mais cuidado para a Júlia de antes. E, com ela, para tantas outras pessoas que, em algum momento, se sentiram perdidas dentro do próprio corpo — querendo ser vistas, acolhidas, amadas.

A caminhada não foi reta. Nem sempre foi leve. Mas ela continua. E hoje, ela faz mais sentido.

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